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riscos_e_rabiscos

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O Mistério Do Assalto Ao Convento

 

Fui recebida à chegada com um segredo: o convento tinha sido assaltado. Mas era segredo de estado. Não podia pensar sobre o assunto e muito menos comentá-lo com alguém.

Entrei no edifício pé ante pé, com receio de me cruzar com os ladrões ou de tocar nalguma coisa e deixar ali impressas as minhas lindas e inocentes impressões digitais.

 

Parece que, durante a noite, alguns meliantes acharam o convento um local atractivo para fazer uma visita nocturna. Entraram sorrateiramente, provavelmente pelo ar pois para além de ficar no alto, o convento fica rodeado de precipícios e despenhadeiros. Como a entrada mais fácil era a da porta da frente, tenho cá pra mim que alguém tentou fazer ali o último filme da saga “Missão Impossível”, - versão tuga – mas como não era suficientemente emocionante, decidiram passear pelas salas e ver o que lhes poderia ser útil nas filmagens e levar “emprestado”. Numa das alas do convento, surripiaram um monitor de PC e uma televisão “fininha”. Ainda remexeram noutras coisas mas acharam que não valiam a pena.

 

Ao assomar-se a uma das salas de outra ala, depararam com uma irmã que ali se encontrava a trabalhar arduamente, de madrugada, enrolando papelinhos para rifas. Ao verem aquele ser, àquela hora e naquela noite (de Halloween), indagaram se aquela visão seria um produto da sua imaginação ou uma visão aterradora de uma entidade vinda do mundo etéreo. Os cabelos a pingar óleo, cara esburacada, nariz adunco e bicudo de verruga na ponta, trajando negro cor de corvo e entoando uma espécie de mantra com voz bruxuleante.

 

Percebendo que alguém estranho se encontrava a espreitar à porta e desconhecendo o intuito da visita àquela hora tardia, a irmã virou a cara em direcção à porta e perguntou com a sua voz bruxuleante “em que vos posso ajudar?”

Ao ver as feições horríveis e ouvir aquela voz horripilante, de tal forma aguda que feria os tímpanos, os meliantes pegaram nas suas perninhas, deram cordas aos sapatos, pegaram nos seus objectos “emprestados” e evaporaram-se dali!

 

Claro que eu contei isto de forma ficcionada mas noventa porcento do que aqui está é verdade. No entanto, tenho algumas questões a pairar sobre a minha cabeça: Porque não levaram os monitores dos computadores todos? Como é que alguém está no silêncio da noite a trabalhar num sítio enorme onde um alfinete que cai ao chão se ouve, e não ouve que anda alguém estranho por ali?

 

Se alguém tiver uma explicação plausível, chegue-se à frente!

 

O “Plano”

 

 

Ouvi por aí um burburinho a dizer que a violência não tinha aumentado em Portugal, que o pessoal anda a ver é muitos filmes.
 
E eu até concordo. Começando pela minha aventura matinal de sexta-feira… Digam lá que aquilo não foi uma cena de filme? Eu até podia ser um Anjo de Charlie disfarçado de teacher. Imaginem lá eu a fazer piruetas no ar para me safar a um possível atropelamento ou a um choque de bólides!!! E ainda mais… desatar a correr atrás do carro do outro para obrigar a cumprir as regras do código da estrada… Isso é que era! Uau! Tinha sido um sucesso de bilheteira, quer dizer, um falanço da vizinhança em geral.
 
Mas isto não fica por aqui. Motivada e inspirada pela não-violência existente no nosso belo país à beira-mar plantado, achei que deveria fazer algo para animar as hostes. É que esta vidinha anda mesmo monótona, não acontece nada…
 
Ainda ontem vinha do metro uma senhora a bradar aos sete ventos, toda radiante, que pensava que ia ser assaltada por um sujeito mas que afinal não… O que tinha sentido nas suas costas não era a ponta de uma arma mas sim a ponta da mala do senhor. Depois, a pobre mulherzita, caiu na realidade e viu que tinha sido enganada. Isto não se faz… uma pessoa à espera de uma coisa e depois sai outra!
 
Mas como eu estava a dizer, decidi fazer algo para tentar fazer sair o pessoal deste marasmo. Fui ao videoclube, aluguei todos os filmes possíveis e imaginários relacionados com aquilo que tinha em mente e fui abastecer-me de pipocas, batatas fritas e outras coisas de roer. Mas não digam a ninguém! Shiu!
 
Passei todo o fim-de-semana nisto. E cada vez que via um filme mais claro e delineado ficava na minha mente “o plano”.
Pensei, reflecti, tracejei, rabisquei e, por fim. Achei que aquilo tinha pernas para andar.
 
Fui comprar uma peruca loira, uns óculos escuros maiores que a minha cara, uma gabardine creme e um baton vermelho. Sim, porque uma gaja tem de estar bem em qualquer ocasião. Ensaiei “o plano” em casa até estar satisfeita como o tom e convicção da voz.
 
Mal saio à rua e entro no carro, sou inundada pela rádio de várias notícias de assaltos aqui e acolá. Fiquei para morrer. Mas afinal o que se passa aqui? Esteve toda a gente a fazer o mesmo que eu no fim-de-semana? Ou será que me roubaram “o plano”? Desconfio é que ando a ser enganada quando me dizem que não se passa nada, e que não há violência e tal e coiso… então em que ficamos?!
 

Assalto À Mão Armada

 

A rua da minha mãe sempre foi tranquila, movimentada e com gente a passar. Pessoas que ali vivem e pessoas que ali passam ocasionalmente. Jovens e crianças que vão para as escolas enfeitam as ruas diariamente.

 

Toda a vida houve brincadeiras no canto abrigado e convidativo debaixo das janelas da minha mãe. Eram tardes de Macaquinho do chinês, Mamã dá licença, rodas e jogos de bola que partiam os vidros da minha vizinha S. e os da minha mãe. E o encontro marcado pelos rapazes, depois do café fechar, para desabafarem as suas mágoas e falarem sobre as suas conquistas amorosas madrugada fora.

 

Anos mais tarde, resolveram “roubar-nos” um bocado do nosso cantinho, o espaço de brincadeiras preferido: colocaram uma cabine telefónica no meio como se de um monumento importante se tratasse. Revolta geral da miudagem. Mas como as crianças têm uma mente engenhosa, rapidamente aquilo foi incluído nas suas brincadeiras.

 

A rua tem meia dúzia de lojas que, ainda hoje, se mantêm. Mudanças de ramo, mudanças de dono mas três delas sempre se mantiveram fiéis ao destino traçado: o café, a padaria e o talho.

Havia ainda uma peixaria que acabou por fechar. Mais recentemente, voltou a abrir, desta vez, como florista.

 

Há poucos anos, fizeram um bairro de realojamento perto da rua da minha mãe. Escusado será dizer que o nível de segurança aumentou drasticamente – só o carro do meu irmão foi assaltado duas vezes e o carro de um vizinho foi pontapeado por prazer até ficar irreconhecível - , as ruas transformaram-se em lixeiras em ponto pequeno e a passagem de sujeitos de ar suspeito é constante (para ir comprar droga). O bairro fica coladinho à porta de uma escola secundária. Depois não se queixem da droga nas escolas!

 

Soube hoje que a Dona F., a florista, foi assaltada no sábado. À mão armada. Três indivíduos de raça negra invadiram o seu parco espaço, fecharam-lhe a porta e depositaram uma arma no balcão. Ela estava acompanhada com outra senhora e ambas tentaram resistir. Mas perante uma arma apontada a nós, a nossa resistência rapidamente se dissolve. Levaram-lhe o dinheiro todo e tabaco.

 

O mais gritante é que o café é no outro lado da rua e que, agora, tem sempre gente à porta a fumar. A falta de sorte foi tanta que, nessa altura estava tudo enfiado no café a ver o jogo de futebol! Ninguém deu por nada.

Da janela da minha mãe vê-se perfeitamente a loja mas como era de noite, as persianas estavam descidas. Era impossível apercebermo-nos de alguma coisa.

No entanto, fiquei muitíssimo triste por não ter podido ajudar. Sinto que poderia ter feito algo. Mas nem sei como…